A Maslenitsa (Масленица) é talvez o feriado mais comemorado na Rússia após o Ano-Novo e o Natal. É celebrada em quase todas as famílias: pelo menos uma vez durante a semana, eles assam panquecas. Hoje vou contar brevemente a história da Maslenitsa, explicar por que é costume comer blinis e o que simboliza o boneco que é queimado no último dia da celebração.
A história da Maslenitsa
Durante séculos, os antigos eslavos comemoravam o início de um novo ano não em janeiro, mas no momento em que o ciclo solar se renovava. Esse marco acontecia no equinócio da primavera, por volta de 21 de março, quando o inverno chegava ao fim, os dias começavam a se alongar e as temperaturas ficavam mais amenas.
A Maslenitsa é uma festa antiga que chegou aos nossos dias desde os tempos pagãos e está profundamente ligada ao início dos trabalhos agrícolas. Nesse período, eram prestadas homenagens a Yarilo (Ярило), divindade do sol primaveril e da fertilidade, que substituía o sol de inverno, Kolyada (Коляда), simbolizando a renovação da vida e da terra.
A chegada da primavera significava que as primeiras colheitas de frutas e verduras se aproximavam, permitindo reabastecer as reservas consumidas ao longo do inverno. Como a visão de mundo dos antigos eslavos era baseada em rituais e simbolismos, eles realizavam cerimônias que representavam a expulsão do inverno e a abertura do caminho para a primavera.
Em conexão com o início da temporada agrícola, o deus do gado, Veles, também era invocado. Segundo a tradição, Veles podia assumir a forma de um urso, animal considerado sagrado e associado às forças da natureza. Acredita-se que existia o costume de levar panquecas recém-assadas para a floresta e deixá-las sobre troncos de árvores como oferenda aos ursos que despertavam da hibernação, vistos como a manifestação do próprio Veles.

A celebração da Maslenitsa é acompanhada por todo um ciclo de ritos, um dos quais é a queima de um espantalho de palha. Existem várias versões sobre a origem desse ritual. A versão mais comum é que os eslavos queimavam a efígie de Morana, a deusa da decadência e da morte. Na imagem de Morana encarnava-se a ideia de uma morte anual e do subsequente renascimento da natureza. Os eslavos acreditavam que Morana governava a Návia (Nav), o submundo, onde reinava junto com Chernobog. De acordo com a crença, todas as manhãs ela espreitava o sol para destruí-lo, mas sempre recuava diante de seu poder. A cada primavera, lutava contra as forças da luz, personificadas por Yarilo, tentando prolongar o inverno na terra o máximo possível. No final, porém, acabava sendo derrotada e queimada simbolicamente na fogueira da Maslenitsa.

Ao queimar sua efígie, os eslavos simbolicamente decretavam o fim do inverno. As panquecas, redondas e douradas, representavam o sol. Muito provavelmente, na origem da Maslenitsa, houve uma fusão entre as tradições de lembrar os ancestrais e de honrar o símbolo do sol, razão pela qual os blinis se tornaram um prato festivo tradicional.
Além disso, no final do inverno, os camponeses chegavam ao fim dos estoques de alimentos preparados no outono, restando basicamente farinha entre os suprimentos. No entanto, a manteiga era abundante, já que as vacas geralmente pariam no inverno e, com a chegada do bezerro, havia fartura de alimentos preparados a partir do leite.
Daí teria surgido o próprio nome da festa. Maslenitsa vem da palavra russa масло (maslo), que significa “manteiga”. É justamente a semana em que os laticínios são consumidos em abundância antes do início da Quaresma. Nesse período, os “pequenos sóis”, os blini, são servidos generosamente cobertos com manteiga, reforçando tanto o simbolismo do sol quanto a ideia de fartura.
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Tradições e costumes da Maslenitsa

A Maslenitsa nunca foi apenas uma semana para comer blinis. Ao redor dela nasceram crenças populares, rituais familiares e costumes que atravessaram séculos.
Os blinis não eram apenas comida, eram um presságio. Panquecas bonitas, douradas e saborosas simbolizavam prosperidade e abundância. Já panquecas queimadas, cruas ou malfeitas eram vistas como sinal de um ano difícil pela frente.
Também se acreditava que era preciso preparar o máximo possível e compartilhar. Oferecer panquecas aos pobres e necessitados fazia parte da tradição e era considerado um gesto que atraía sorte e fartura para o lar.
Outra regra não escrita era que não se deveria passar a Maslenitsa de mau humor. A alegria fazia parte do ritual. Rir, cantar, visitar amigos e familiares — tudo isso era visto como forma de garantir um ano novo feliz. Até o preparo das panquecas tinha um componente simbólico: a massa deveria ser feita com bons pensamentos e desejos sinceros de saúde, prosperidade e felicidade para quem fosse comer.
A semana que mistura paganismo e cristianismo
Com a adoção do cristianismo, a antiga celebração pagã foi reorganizada. A Maslenitsa passou a ocupar a semana que antecede a Quaresma e ganhou uma estrutura bem definida.
Hoje, ela é tradicionalmente dividida em duas partes:
- Maslenitsa Estreita — os três primeiros dias da semana
- Maslenitsa Larga — da quinta-feira até o domingo
De segunda a quarta-feira, as famílias organizavam a casa e a comunidade se preparava para as grandes festividades. Os anciãos decidiam onde aconteceriam as celebrações, quem seria responsável por cada tarefa e como tudo seria organizado.
A partir de quinta-feira, o trabalho era interrompido. O foco passava a ser exclusivamente a celebração: assar panquecas, receber convidados, visitar parentes e participar das festas populares.
O último dia é o mais simbólico: o Domingo do Perdão. Segundo a tradição ortodoxa, é o momento de pedir e conceder perdão antes do início da Quaresma, encerrando a semana com reconciliação e renovação espiritual.

Os dias da Maslenitsa: uma semana com significado
Então, cada dia da Maslenitsa tem um nome e um simbolismo próprio. A semana inteira segue uma lógica tradicional que mistura costumes pagãos e práticas cristãs.
Segunda-feira — O Encontro (Встреча)
O primeiro dia é chamado de Encontro. É quando começam oficialmente os preparativos e as primeiras panquecas são assadas.
Segundo antigas crenças, a primeira panqueca era colocada no limiar da casa. Acreditava-se que os fundadores da família estavam espiritualmente ligados àquele espaço. Após o Batismo da Rússia, esse costume foi adaptado: a primeira panqueca passou a ser dada aos pobres, para que eles lembrassem os antepassados falecidos nas suas orações.
Também era comum que, nesse dia, as famílias começassem a organizar visitas entre parentes.
Terça-feira — As Brincadeiras (Заигрыши)
A terça-feira era dedicada aos jogos e às interações entre os jovens. Tradicionalmente, era o momento em que começavam as conversas sobre possíveis casamentos.
Durante as festividades, rapazes e moças observavam uns aos outros, enquanto os pais avaliavam possíveis futuros genros e noras. A Maslenitsa também era, portanto, uma espécie de “temporada de aproximações”.
Quarta-feira — A Gulosa (Лакомка)
Na quarta-feira, o destaque era a mesa farta. Esse dia ficou conhecido como “A Gulosa”.
Era tradição que o genro fosse visitar a sogra para comer suas panquecas. Outros familiares também eram convidados. O genro, além de saborear os pratos, deveria elogiar a anfitriã — fortalecendo os laços familiares.
Quinta-feira — A Grande Festa (Разгуляй)
A partir de quinta-feira começava a chamada Maslenitsa Larga, o período das celebrações mais intensas.
Esse dia era conhecido como “Dia da Folia” ou “Grande Festa”. Era o momento de deixar para trás as tensões acumuladas durante o inverno. Jogos populares, competições, desafios e até lutas amistosas faziam parte das comemorações.
As lutas corporais, embora pareçam violentas hoje, eram vistas como uma forma ritualizada de extravasar conflitos e “purificar” a comunidade antes da primavera.
Sexta-feira — A Noite da Sogra
Se na quarta-feira o genro visitava a sogra, na sexta-feira a tradição se invertia.
A sogra era convidada à casa do genro, em um gesto simbólico de respeito e reciprocidade. Esse intercâmbio ajudava a fortalecer as relações entre as famílias.
Sábado — Os Encontros das Cunhadas
O sábado era dedicado às mulheres da família do marido. A esposa recebia as irmãs do marido (as cunhadas) em casa.
Era um momento feminino, de convivência e fortalecimento dos laços familiares. Amigas também podiam ser convidadas.
Domingo — A Despedida e o Perdão
O último dia encerrava oficialmente a semana festiva.
Na tradição popular eslava, era o dia da Despedida da Maslenitsa, quando o boneco que simbolizava o inverno era queimado.
Na tradição ortodoxa, o dia é conhecido como Domingo do Perdão (Прощёное воскресенье). As pessoas pedem perdão umas às outras antes do início da Quaresma, dizendo:
“Perdoe-me”, e respondendo: “Deus perdoa”.
Após a cristianização, tornou-se comum também ir à igreja nesse dia e visitar os túmulos de familiares para lembrá-los em oração.

Como a Maslenitsa era celebrada
A história da Maslenitsa, além de panquecas, queima de efígies e visitas conhecidos, está profundamente ligada a jogos, desafios e grandes celebrações ao ar livre.
Durante essa semana, vilas e cidades se transformavam em verdadeiros palcos de diversão.

Entre as atividades mais populares estavam as descidas de trenó pelas encostas geladas. Crianças e adultos escorregavam em trenós de madeira pelas margens congeladas dos rios. Quanto mais gelo acumulado nos trilhos improvisados, mais longe era possível deslizar, às vezes atravessando grandes trechos de rio congelado.
Os jovens também tinham suas próprias aventuras. Um costume curioso era descer a ladeira em pé sobre troncos cobertos de gelo, tentando manter o equilíbrio até o final da descida. Era uma mistura de brincadeira, desafio e demonstração de coragem.
Outra cena típica eram os passeios de trenó puxado por cavalos ao redor da vila. Acreditava-se que dar a volta completa no assentamento protegia a comunidade de infortúnios ao longo do ano.
Como o urso era considerado símbolo da primavera, por despertar da hibernação com a chegada do calor, apresentações com ursos treinados também faziam parte das festividades em algumas regiões.
Nas cidades, as praças ganhavam feiras, carrosséis e apresentações de artistas itinerantes. Era o momento de reunir a população inteira para assistir a espetáculos, cantar e celebrar.
Entre as brincadeiras mais intensas estava o “assalto à fortaleza de neve”. Uma estrutura de gelo era construída previamente, e dois grupos se enfrentavam: defensores e atacantes. A disputa era animada e, não raramente, resultava em hematomas e contusões. Assim como nas tradicionais lutas de punho, esses confrontos funcionavam como forma de extravasar tensões acumuladas durante o inverno.
À noite, a juventude se reunia para cantar, dançar em roda e saltar sobre fogueiras. Esses encontros tinham também um papel social importante: era o período ideal para formar casais. Durante a Quaresma, as famílias acertavam os detalhes, e depois da Páscoa, muitas vezes, os casamentos eram celebrados.

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